O que você consegue verificar sozinho
A inspeção prévia segue uma lógica natural: examinar o carro parado, ligar e observar, dirigir, conferir documentos. Cada momento revela coisas diferentes.
Antes de ligar
Examine a lataria com o carro parado e à luz do dia, nunca em garagem escura ou à noite. Procure diferenças de tonalidade na pintura entre painéis adjacentes. Uma porta com tom levemente diferente do restante da carroceria quase sempre indica repintura após reparo. Comparar com outra unidade do mesmo modelo, quando possível, ajuda a calibrar o olho, porque alguns carros saem de fábrica com folgas e variações de qualidade que não significam nada.
Passe a mão nas emendas entre painéis. O espaçamento deve ser uniforme. Folga irregular entre porta e coluna, entre capô e para-lama, entre tampa do porta-malas e carroceria são sinais de que algo foi mexido. Vale lembrar que carros mais simples às vezes têm folgas irregulares de fábrica, então o sinal é mais forte quando você consegue comparar com outro veículo do mesmo modelo.
Agache e olhe o carro de frente e de trás em perspectiva. A carroceria deve parecer simétrica. Qualquer ondulação ou assimetria visível merece atenção.
Verifique os pneus. O desgaste deve ser uniforme no mesmo eixo. Desgaste irregular, mais de um lado do que do outro, indica problemas de alinhamento ou suspensão que já estão gerando custo.
Abra o capô e observe sem tocar. Procure manchas de óleo ressecado em volta do motor, mangueiras ressecadas ou com remendos, e líquidos com cor fora do padrão. Líquido de arrefecimento deve ser verde, rosa, laranja ou azul (depende do fabricante), nunca marrom ou com aspecto leitoso. Aspecto leitoso é o sinal mais grave do compartimento do motor: pode indicar mistura com óleo, sintoma de junta de cabeçote comprometida, problema caro e que muito vendedor "não sabia que tinha".
Com o motor ligado
Ligue o carro frio, sem que tenha andado antes. Motor que demora a pegar, que trepida nos primeiros segundos ou que faz barulho metálico ao ligar merece atenção.
Sobre fumaça branca: cuidado com a interpretação. Fumaça branca curta na partida fria de manhã é vapor d'água condensado, normal. O sinal preocupante é fumaça branca persistente, com cheiro adocicado, que continua aparecendo depois que o motor já está quente. Esse padrão pode indicar problema na junta do cabeçote.
Deixe o motor em marcha lenta por alguns minutos. Trepidação excessiva, barulhos rítmicos ou oscilação no conta-giros são sinais que valem ser investigados.
No test drive
Dirija em linha reta e solte o volante por um segundo em velocidade baixa. O carro não deve puxar para nenhum lado. Freie com força moderada. O carro deve parar em linha reta. Barulho de arranhado ou rangido nos freios indica pastilhas gastas ou disco com problema.
Passe por um quebra-molas em velocidade baixa e ouça a suspensão. Estalos, batidas ou rangidos indicam componentes desgastados. Teste todas as marchas: câmbio manual não deve ter dificuldade pra engrenar, câmbio automático não deve dar trancos ao mudar de marcha.
Em piso irregular, com o carro carregado de forma assimétrica (passageiros só de um lado, ou carga concentrada), problemas estruturais que normalmente passam despercebidos podem se manifestar em ruído ou comportamento estranho da carroceria.
Documentação, o que checar antes de qualquer negociação
Verifique se o número do chassi gravado no veículo confere com o que está no documento. O chassi aparece em vários pontos: no para-brisa (canto inferior, pelo lado de fora), no batente da porta do motorista, no compartimento do motor e em alguns modelos no vão do estepe. Confira pelo menos dois pontos físicos do veículo entre si, e depois compara com o documento. Divergência entre dois pontos físicos do próprio veículo já é sinal grave por si só, mesmo sem checar o documento.
Confira se o nome no documento corresponde ao de quem está vendendo. Se não corresponder, peça explicação clara antes de continuar.
Pesquise a placa gratuitamente no site do DETRAN-SP pra verificar débitos de IPVA, multas e licenciamento. Veículo com débitos altos que o vendedor "não sabia" é mais comum do que parece.
Vale entender também o que cada documento atesta. CRV, CRLV-e e ATPV-e têm funções diferentes no processo, e o blog tem post detalhado sobre essa distinção, com o que verificar em cada um.
Carro que passou por muitos donos em pouco tempo (três ou quatro proprietários em dois anos) merece investigação. Não é impeditivo, mas é dado relevante na negociação. A consulta gratuita do DETRAN-SP não mostra histórico de proprietários de forma direta. Pra essa informação, ou você pergunta ao vendedor (e cruza com o que o documento conta), ou ela aparece na vistoria cautelar junto com outras checagens.